Fabiano
Lopes da Silva
Joana
D’arc de Oliveira [1]
E-mail:
fabianolopez@hotmail.com; joanadarc654@hotmail.com;
RESUMO:
Neste presente artigo temos como objetivo apresentar um pequeno debate sobre a
preservação dos valores importados pelo sistema monárquico português durante o
II Império. Como as elites oligárquicas conservadoras do país aderiram sem
disfarce a cultura europeia e manipularam o imaginário da população. Bem como
as questões sociais, politicas e econômicas que permeiam esse período tão
importante para nossa historiografia.
Palavras
chaves: Monarquia, Cafeicultores, Imigrante.
1.
O INICIO DO II IMPERIO
Discutir
o II Império é evocar uma clássica tese de que, na Europa e na América
portuguesa, havia o artifício político e jurídico destinado a preservar a
herança colonial pelo máximo tempo possível e fazer com que à sua volta se
unissem as grandes classes proprietária. Identificaremos que no II Império a
Corte preocupava-se em estruturar e beneficiar os senhores de terra e escravos,
sendo assim manipulada pelos cafeicultores latifundiários do Vale da Paraíba do
Sul.
Hipoteticamente
falando e tomando como centro de discussão a monarquia absolutista e as
revoltas contra o regime monárquico, iremos identificar o II Império como um
“corpo estranho” numa América do Sul retalhada em repúblicas. A monarquia e as
repúblicas hispano-americanas foram regimes em que o povo não tinha
participação, ou seja, limitando-se a atender aos interesses de um sistema
oligárquico fadado ao fracasso, porém desejoso de se manter no poder
definitivamente. Como diria José Murilo de Carvalho em seu livro “Os bestializados: O Rio de Janeiro e a
república que não foi” - O povo assistiu bestializado a proclamação da
república, o estabelecimento da república no Brasil não teve uma participação
popular, o povo julgou tratar-se de uma “parada militar” (José Murilo de Carvalho, Os Bestializados: O Rio de Janeiro e a
república que não foi. Pág, 57).
A
monarquia brasileira expressou seu distanciamento do Brasil Colônia através de
uma “consciência” cultural com os valores da Europa burguesa, que é de onde
vinham os artigos manufaturados e para onde se vendiam o café, logo a cultura
colonial vai sendo jogada no ostracismo e a europeia conquistando seu espaço no
II Império. Em resumo a fase conservadora e europeizada que foi o II Império,
as elites aderiram, sem disfarce, a uma cultura importada do Velho Mundo,
demonstrando que não faziam questão de qualquer vinculação com a da sociedade
local, nem mesmo que fosse no sentido de manipular a cultura popular com fins
conciliatórios e demagógicos, como fariam as classes dominantes de tempos
posteriores.
Em
1867, José de Alencar iniciou a publicação de Ao imperador: novas cartas
políticas de Erasmo, para defender a escravidão no Brasil contra a iminente
ameaça de o governo submetê-la a um processo legislativo de emancipação, que
viria a impor-se definitivamente em 1871, com a Lei do Ventre Livre. Embora não
fosse necessário, o escritor também louvou ali o tráfico negreiro como meio de
desenvolvimento material, moral e cultural do Brasil.
Não havia outro meio de transportar aquela raça [os
africanos] à América senão o tráfico. Por conta da consciência individual,
correm as atrocidades cometidas. Não carrega a idéia com a responsabilidade de
semelhantes atos, como não se imputam à religião católica, a sublime religião
da caridade, as carnificinas da inquisição. O tráfico, na sua essência, era o
comércio de homens; a mancipatio dos romanos. Sem a escravidão africana e o
tráfico que a realizou, a América seria ainda hoje um vasto deserto.[2]
1.2
A POLÍTICA IMPERIAL
Externa
o sistema político imperial é adentrar numa circunferência com a certeza que
vamos entrar num terreno já sabendo quais caminhos iremos explorar. Após
superar crises e comoções sociais o império entra em sua fase de apogeu. O
apogeu coincide, historicamente com o vigor do primeiro ciclo do café, das
questões platinas e do parlamentarismo. A bipolaridade partidária entre os dois
partidos, Liberal e Conservador era mediado por D. Pedro II, o mesmo tinha
autonomia em intervir nos casos de crise entre ministérios e Câmara de
Deputados. O monarca podia substituir e até forçar a dissolução da Câmara e a
convocação de novas eleições.
Logo,
podemos concluir que as eleições do II Império eram instrumentos inviáveis de
opção política, pois tudo era decidido a nível de acordos palacianos ou
arbitramentos imperiais. As eleições eram fraudulentas, portanto não
representativas. A apatia política, a fraude eleitoral e a absoluta
despolitização da massa brasileira que viviam dispersas num enorme território
brasileiro, pontilhados de algumas cidades, pequenos povoados, latifúndios e
senzalas eram ignorados e seus direitos corrompidos e esquecidos por aqueles
que ascendiam ao poder.
Politicamente
falando, o que mais funcionava naquele sistema era a máquina centralizadora do
poder moderador e do ministério, pois não possuíam representatividade, mas
tinha eficiência, embora, é claro dentro de certos limites.
Dois fatos (aliás,
intimamente relacionados) a constituem; um de natureza geográfica: é o
deslocamento da primazia econômica das velhas regiões agrícolas do norte para
as mais recentes do Centro-Sul (o Rio de Janeiro e partes limítrofes de Minas
Gerais e São Paulo). Outro é a decadência das lavouras tradicionais do Brasil –
da cana-de-açúcar, do algodão, do tabaco -, e o desenvolvimento paralelo e
considerável da produção de um gênero até então de pequena importância: o café,
que acabará por figurar quase isolado na balança econômica brasileira.[3]
Um
dos fatores mais importantes que devemos considerar no II Império, fora a
questão geográfica é sem sobra de dúvida o crescimento e expansão da lavoura
cafeeira principalmente na região de São Paulo. Enquanto a região nordeste
estagnava o Sudeste progredia com o café. Primeiramente foi plantado na baixada
fluminense no Rio de Janeiro as margens do rio Paraíba do sul. Mas é no oeste
paulista com suas terras roxas que o café dá um resultado significativo. E
somando com a mão de obra especializada do imigrante assalariado o II Império
vai vivenciar o apogeu. Nesse contexto índios e primitivos ocupantes
(posseiros) foram expulsos de terras que deram origem a imensos cafezais, fato
esse amparado pela Lei de 1850 desautorizava qualquer forma de aquisição de
terras que não fosse por compra. Percebe-se neste contexto que a Lei é
utilizada como instrumento jurídico que muito favoreceu os grandes
latifundiários da agricultura cafeeira.
1.3
OS SENHORES DO CAFÉ
No
entanto os Senhores do Café se diferenciavam entre si. A produção do café do
Vale do Paraíba seguia muito os moldes do sistema produtivo colônia:
latifúndio, monocultura, escravismo. Enquanto que o Senhor proprietário dos
cafezais do oeste paulista era um verdadeiro empresário rural com grande visão,
tanto é que defendia o sistema republicano, pois os mesmos apesar do poder
econômico não tinha poder de decisão politica no Estado. Este ajudou a criar
capitais para serem investidos no setor, utilizou o imigrante assalariado,
estimulando assim o mercado interno, e propiciou todo o progresso
infraestrutural financeiro, urbano e comercial o que favoreceu o crescimento
industrial.
Embora adstritos ao sudeste,
a região do café e dos investimentos ingleses, os números do progresso interno
ao tempo do II Império são dignos de nota. Ente 1850 e 1860, surgiram 62
empresas industriais, 14 bancos, 3 caixas econômicas, 20 empresas de
colonização, 8 empresas de mineração, 3 empresas de transportes urbanos, 2
empresas de gás e 8 estradas de ferro.[4]
Fica claro como podermos perceber que a agricultura cafeeira
trouxe inúmeros benéficos a economia do II Império. No entanto esse crescimento
econômico não criou uma nova ideologia modernizante no seio da aristocracia
cafeeira. Como a exemplo temos o gaúcho Irineu Evangelista de Souza conhecido
como o Barão de Mauá, que mesmo tendo uma visão do progresso e de futuro veio a
falir, tendo em vista a incapacidade da sociedade brasileira de perceber as
possibilidades de transformações estruturais naquele momento.
Os fazendeiros do café
investiram na industrialização de São Paulo boa parte de seus capitais
acumulados no comercio exterior: diferente da industrialização nos países
desenvolvidos – diagnostica um documento do governo, o processo da
industrialização brasileira não se deu paulatinamente, inserido dentro de um
processo de transformação econômica geral. Antes, foi um fenômeno rápido e
intenso, que se superpôs à estrutura econômica-social preexistente, sem
modifica-la por inteiro, dando origem a profundas diferenças setoriais e
regionais que caracterizam a sociedade brasileira.[5]
Evidentemente os investimentos dos capitais em São Paulo foram
bastante promissores. Alguns fatores importantes e que contribuíram muito para
o desenvolvimento da agricultura cafeeira nesse Estado e que merece destaque
são: A melhor tecnologia em nível de beneficiamento, maior racionalização da
atividade econômica globalmente falando, utilização da mão-de-obra assalariada
do imigrante, bem como não poderíamos deixar passar a questão geográfica, pois
o Estado de São Paulo possuía uma grande área de terra roxa ideal para a
exploração da lavoura cafeeira.
Além do mais os fazendeiros do café, se interessavam por politica
internacional, principalmente quando esta alterava os preços do café, Eles não
moravam nas Fazendas e sim cidades, razão pela qual estimulava bastante o
crescimento urbano e o desenvolvimento de atividades comerciais, financeira e
burocrática. Por isso é certo dizer que o processo de industrialização do
Brasil se deu com os lucros obtidos da lavoura cafeeira.
Além da mão-de-obra escrava,
o café utilizou o braço dos imigrantes europeus, que entregam aos proprietários
metade de suas colheitas, num regime meeiro que ainda hoje predomina no
interior do Brasil.[6]
A vinda do imigrante que
era considerado “superior” por ser europeu conforme uma ideologia eurocêntrica
e colonialista da época que evidenciava e desqualificava os brasileiros.
Segundo Darcy Ribeiro, “havia muitos brasileiros sem terra, mas esta foi dada a
estrangeiros”. O certo é que quem teria por direito natural às terras ficou de
fora do processo, restando lhes as tarefas não especializadas e de baixa
renumeração. Para essas vitimas da expansão cafeeira não havia empregos nem na
lavoura cafeeira nem nas cidades, tendo em vista que os imigrantes também
haviam tomado conta das cidades, assumindo varias atividades e formando assim
uma nova camada burguesa.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
O Estado não se preocupou
com os problemas sociais, mais apenas utilizou seu poder para reprimir os
conflitos que iriam surgindo. Fruto dessa situação lastimável na qual gera um
número muito grande de marginalizados. A Lei neste caso é utilizada como um
instrumento jurídico a fim de expulsar índios e posseiros de seus roçados favorecendo
assim o capitalista. De tudo somos levados a crê que houve um significado e
importante crescimento econômico durante o II Império. No entanto fica claro
que mesmo com esse crescimento industrial não houve uma mudança de mentalidade
na sociedade que continuou sendo latifundiária, conservadora, aristocrática,
preconceituosa, escravocrata e totalmente dependente do exterior.
REFERÊNCIAS
GALEANO, Eduardo. As Veias
Abertas da América Latina. São os Sentinelas que abrem as portas: A
Esterilidade Culpável da Burguesia Nacional, Editora Coletivo Sabotagem.
Barcelona, 1978, p. 148.
GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas
da América Latina. São os Sentinelas que abrem as portas: A Esterilidade
Culpável da Burguesia Nacional, Editora Coletivo Sabotagem. Barcelona, 1978, p.
69.
História
do Brasil Imperial. Luiz Roberto Lopez. Ed.: Contexto. Pag. 73
[José
de Alencar]. Ao imperador: novas cartas políticas de Erasmo. Rio de Janeiro:
Typ. De Pinheiro e Cia., 1867, “Segunda carta (sobre a emancipação)”, p.17.
PRADO JUNIOR, Caio. História Econômica do
Brasil. O Império Escravocrata e a Aurora Burguesa 1850-1889. São Paulo, Editora
Brasiliense, 2004, p. 114.
[2] [José de Alencar]. Ao imperador: novas cartas políticas de Erasmo.
Rio de Janeiro: Typ. De Pinheiro e Cia., 1867, “Segunda carta (sobre a
emancipação)”, p.17.
[3] PRADO JUNIOR, Caio. História
Econômica do Brasil. O Império Escravocrata e a Aurora Burguesa 1850-1889.
São Paulo, Editora Brasiliense, 2004, p. 114.
[4] História do Brasil Imperial. Luiz Roberto Lopez. Ed.: Contexto.
Pag. 73
[5] GALEANO, Eduardo. As Veias
Abertas da América Latina. São os Sentinelas que abrem as portas: A
Esterilidade Culpável da Burguesia Nacional, Editora Coletivo Sabotagem.
Barcelona, 1978, p. 148.
[6] GALEANO, Eduardo. As Veias
Abertas da América Latina. São os Sentinelas que abrem as portas: A
Esterilidade Culpável da Burguesia Nacional, Editora Coletivo Sabotagem.
Barcelona, 1978, p. 69.
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