Jefferson Evanio
Graduando em História (6º Período) - Faculdade de Formação de Professores da Mata Sul
Graduando em História (6º Período) - Faculdade de Formação de Professores da Mata Sul
Uma
introdução: um olhar foucaultiano.
O
point d´honnur dos castigos – não
devem restaurar a honra de uma moral x ou y? é uma ferramenta inerente à
relação símbolos/poder. A dor, os gritos, o sangue, os suplícios , em uma
palavra: símbolos. Buscam representar aos milhares de entourages, a autoridade que emana dos membros do Estado em sua
modernidade. Da mesma maneira que o discurso está a serviço do poder, Foucault
desvenda a camada oculta dos castigos, atos punitivos. Punir o corpo, punir a
psique, fundar através da solidificação do medo tijolos morais estatais. O
estado em sua modernidade observa seus membros participarem da estranha
simbiose entre morte, moral e poder. Em busca do inconsciente/ocultismo das
mutações, e da mesma maneira das relações de poder o filósofo francês elege
mais uma vez os quadros de descontinuísmo, e as rupturas, – construtoras de um
remodelado sistema punitivo, digamos mais “humanístico’’ a partir do final do
século XIX-, surge como artimanhas da razão das esferas dominantes.
Homens
– corpo -sofrimento – poder: Um teatro que elege o aniquilamento da vida e
fortalece os sentidos de ordem.
“Enquanto era feita a leitura da
sentença de condenação, estava de pé no cadafalso,sustentado pelos carrascos.
Era horrível aquele espetáculo: envolto em grande mortalha, a cabeça coberta
por um crepe, o parricida estava fora do alcance dos olhares da silenciosa multidão.
E sob aquelas vestes, misteriosas e lúgubres, a vida só continuava a manifestar-se
através
dos gritos horrorosos, que se extinguiram
logo, sob o facão’’[1]
Quais
as relações entre: punição do estado moderno e os homens? Quais os sentidos de
uma simbiose entre: sangue e trono? Gritos e poder? Morte e manutenção de
forças vitais[2]?O
corpo é o piso em que se constroem a partir de representações da moral punitiva
os pilares do sistema legal. Local de abrigo do medo, da fome e da morte. Sem
ele: religiosidade, economia, arte e cultura são meros elementos metafísicos. É o corpo, local de abrigo do que
Shopenhauer, Nietzsche, Kant denominaram respectivamente de: “Vontade’’ “Vontade de potência’’ e enfim – na tentativa
de pacificar os corpos desejantes por meio dos grilhões da moral kantiana - a “boa vontade’’. Pois bem, a condição sine qua non do poder do Estado moderno : seu ataque aos corpos
através do teatro/ferramentas da morte. Um ritual fúnebre que aniquila o corpo
e constrói outro: o poder.
A
máquina administrativa tem assumido o papel de cobrar do corpo sua função, e
quando da quebra da ordem estabelecida, os corpos devem ser punidos. No
medievo, e ainda na época posterior, herdeira do “absolutismo das formas
punitivas’’, o corpo era o personagem
principal de uma espécie de rito teatral fúnebre – Se as sociedades
indo-europeias em sua antiguidade respiraram uma “religião da morte’’ conforme
descreveu Fustel de Coulanges[3], a
modernidade respirou o que podemos chamar de “legalização do sofrimento
físico’’. Um espetáculo. Corpos mutilados, entranhas retiradas do acusado tão
subitamente que este poderia assistir a seus membros sendo queimados na
fogueira, braços, pernas, tronco, cabeça, ambos separados pela tração animal.
Punir neste universo, foi uma medida que elegia o corpo como o púlpito das
condenações.
A
ruptura/nascimento de uma nova ordem vigente, estabeleceu um novo modus operandi da máquina jurídica. Punir,
a partir do século XIX continua a ser uma espécie de teatro. No entanto, seus
personagens se ocultam, mais que isso, o ato punitivo assiste ao que podemos
chamar de “socialização’’ ou ainda “ subdivisão’’ das tarefas. De onde emanam
os imperativos categóricos? Liquefação e ocultismo jurídico! O juiz não age
sozinho; o discurso psiquiátrico, a medicina, a psicologia e outras áreas do
conhecimento se juntam ao sistema punitivo. Esta espécie de fragmentação nos
permite assinalar o que Baumam chamou de fluidez, no sentido de uma diluição do
antes estático para a edificação de escorregadias e ambíguas formulas do
aparato punitivo do Estado.
A
organização do poder é articulada sabiamente, no sentido de submeter e
submeter-se vis-a-vis sem perder de vista a cristalização de seu sistema
moralizante. Para tal efeito, os alvos são os homens, seduzidos pela moral que
de certo é maestra na arte da sedução.
Como
uma pirâmide, os homens em sua modernidade, imbuídos de sua natureza de pequena
partícula – como nos sugere a reflexão da física quântica – estão ligados uns
aos outros somente a partir de uma necessidade: a submissão. Os filhos aos
pais, os pais e filhos ao sistema legal do Estado, o Estado a outro Estado. A
derrota do cogito (eu) refletido em suas várias imagens, empurrada pela falsa
promessa e confusa clareza em vencer o niilismo, impossibilitaram a formação de
um self-government. Esta repetição
mecânica e inevitável da organização do poder é inerente ao convívio humano,
pois quando as submissões fogem desse terreno, continuam a existir em outros:
nos sistemas de crenças, padrões estéticos, morais, éticos, etc.., toda uma
espécie de “rede de micropoderes’’ cerca o homem idealizado desde a revolução
copernicana. O ego ipissimus é um eu do outro, e a tentativa em enaltece-lo
esbarra nos paredões da máquina extrínseca ao homem. O quanto é necessário aos
“organismo vivos’’ para que possam almejar o silêncio coletivo ao proferir como
Nietzsche em Demasiado humano: EGO IPISSIMUM ( meu mais íntimo eu)!
Considerações finais
A
história de vigiar e punir, ou melhor, a ruptura e descontinuísmo do modus operandi da máquina do Estado, é
uma marca inelutável de sistemas que devem assumir novas máscaras em prol da
legitimidade daquilo que se anuncia como novo. O que a primeira vista pode ser
descrito como uma “humanização’’ das formas de punir, foi no mínimo uma
tentativa em diluir o passado, em romper com o antiquado a partir de uma
antítese, qual seja, um novo sistema moral. O que chamamos em outro artigo de
“discursos de natureza sólida’’. A história, que continua a se inscrever numa
intriga como bem assimilou o pensamento aristotélico, é conduzida pelos homens que aplaudem o que
consideram ser a humanização das formas de vigiar e punir, pois são doutrinados
pelo behaviorismo educacional, político, moralizante e estético emanado pelas
microfísicas do poder. Os status quo
dos centros gravitacionais, imbuídos de uma glória romântica se tornam
diamantes, cristalizados e fossilizados pela incapacidade humana em enxergar no
escuro e ouvir o que dizem as palavras em seu silêncio.
Referências bibliográficas: Foucault, Michel.
Vigiar e punir; nascimento da prisão; tradução de Raquel Ramalhete. Petrópoles,
Vozes, 1987.
Prezado Jefferson Evanio, lhe dou os parabéns pela produção de mais um excelente artigo. Discutir morte, moral e poder na perspectiva do Foucalt é uma atitude para poucos que apreciam uma boa leitura e uma discussão calorosa sobre a literatura clássica das ciências humanas.
ResponderExcluirMestre Marlon Oliveira, agradeço pela abertura desse espaço para a divulgação dos trabalhos dos alunos do Curso. Espero que possam produzir e acima de tudo discutir a temática das produções.
ResponderExcluirCaro amigo Jefferson Evanio, tenho por satisfação as ricas oportunidades de poder discutir, tantas temáticas pertinente a nossa formação e vida acadêmica. Contudo devo cumprimentar a iniciativa de nosso professor Marlon Oliveira, pelo mesmo nos abrir este importante espaço, para que nossas discursões, estas agora na forma de produções cientificas, tal como o seu belo artigo publicado logo acima, possam ser exibidos, lidos e discutidos, sinto que tais discursões de agora em diante não estarão apenas restritas as nossas idas e vindas a FAMASUL, mais a todos que queiram deste favo de mel se deliciar. E isto apenas é possível graças a você Marlon, nosso professor, não apenas de nossa formação acadêmica, mais posso dizer de toda nossa vida cientifica.
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