terça-feira, 2 de setembro de 2014

Espaço Olhares da História - A CRISE DE IDENTIDADE NA MODERNIDADE E RELACIONAMENTOS NA CIBERCULTURA


Elias Francisco Brasileiro
Aluno do 3º período de História - 2014.2



Vivemos em tempos de profundas mudanças. Mudanças estas, rápidas, fragmentadas e consideravelmente em sua maioria, passageiras. O homem do século XXI, raramente consegue estabelecer uma experiência com algo ou alguém, tendo em vista, a fervorosa dinâmica, social, cultural entre outras, que não permitem “perder tempo”. Pois, perder tempo é o mesmo que morrer, sabendo-se que o que garante a permanência sobre a camada do gelo (sucesso) é exatamente a velocidade com o que o homem moderno circula (patina) sobre ela e se apropria das relações. Nessa efervescência moderna, cada pessoa busca e ao mesmo tempo perde o sentido da identidade. 
A necessidade de identificação, considerada uma demanda típica das reflexões fundamentalistas da Modernidade, deixou de ser uma exclusividade do plano real e foi absorvida pela rede dentro da nova cultura virtual, também chamada cibercultura. Este é apenas um dos aspectos de um fenômeno conhecido como globalização que, após eliminar a distância espaço-temporal, vem proporcionando novas formas de socialização entre os indivíduos. Discutiremos, neste artigo, como o não dedicar tempo e exclusividade as relações pessoais e interpessoais, típico na modernidade pode contribuir para crise de identidade. 

1.Identidade na Modernidade:
Não seria estranho abordar que a sociedade moderna difere de quaisquer outra no tocante dos avanços tecnológico, dinamismo e em especial, seu poder de impacto a nível global. Porém, autores como Anthony Giddens (2002) nos convida a reflexão no sentido de não entendermos tais elementos apenas como transformação em extensão. A Modernidade também altera radicalmente a natureza da vida social cotidiana, refletindo nos aspectos mais pessoais da nossa existência. 

A modernidade deve ser entendida num nível institucional; mas as transformações introduzidas pelas instituições modernas se entrelaçam de maneira direta com a vida individual, e portanto com o eu. Uma das características distintivas da modernidade, de fato, é a crescente interconexão entre os dois “extremos” de extensão e da intencionalidade: influências globalizantes de um lado e disposições pessoais do outro. (GIDDENS, 2002, p.9).


Como Zygmunt Bauman (2005) reafirmaria mais tarde, Giddens (2002) revelou que para se pensar a identidade no mundo de hoje, denominado por ele como Modernidade Alta, ou Modernidade Tardia, é preciso considerar tanto o eu quanto o contexto que o cerca, dentro de uma construção reflexiva em meio a presente diversidade de opções e possibilidades.  Essa infinidade de escolhas traz consigo uma série de riscos e desafios, que outras gerações não precisaram enfrentar e superar tanto na vida pessoal quanto na profissional como a reflexão acerca de sua identidade por exemplo. Com a superação dos antigos critérios de afiliações sociais, geralmente determinados por raça, gênero, local de nascimento, família ou classe social, os indivíduos continuam na ânsia de encontrar novos grupos com os quais se vivencie o pertencimento e que possam facilitar a construção da identidade.

Por outro lado, diante da recente facilidade de aderir ou abandonar as comunidades virtuais, Bauman (2005) aponta os aspectos negativos dessa tentativa de substituição das formas sólidas de convívio que, “graças à solidez genuína ou suposta, podiam prometer aquele reconfortante (ainda que ilusório ou fraudulento) ‘sentimento de nós’ – que não é oferecido quando se está surfando na rede”. (p.31). Daí nos perguntamos: que tipo de relacionamentos se estabelece a partir desse novo paradigma onde cada vez mais os indivíduos perdem tempo diante do computador, o fenômeno da busca de interação nas comunidades virtuais pode estar limitando a nossa capacidade de estabelecer interações espontâneas com pessoas reais, devido a uma aparente saciedade de intimidade simulada?


2.Modelo de relacionamentos na Cibercultura:

Nas novas formas de relacionamentos estabelecidos a partir da cibercultura, essas conexões formam o tipo de relacionamento mais condizente com o líquido cenário da vida moderna. "Se espera e se deseja que 'as possibilidades românticas' surjam e desapareçam numa velocidade crescente e em volume cada vez maior, aniquilando-se mutuamente e tentando impor aos gritos a promessa de 'ser a mais satisfatória e a mais completa.” (BAUMAN, 2004: 12). Contudo, quando surge a tendência de substituir as parcerias pelas redes, ao não ser mais possível sustentar um relacionamento, entra em cena também a maior dificuldade de estabelecer-se, pois não há mais a habilidade que pode, ou poderia fazer, a união funcionar. Bauman defende que a facilidade do desengajamento e do rompimento, a qualquer momento, não reduz os riscos, apenas os distribui de modo diferente, junto com as ansiedades que provoca.

Bauman faz uma análise da falta de relações olho no olho, frente a frente.  Pois, nesse caso para romper um laço de amizade, por exemplo, de certa forma torna-se muito traumático para qualquer pessoa, tornaria muito mais difícil. A pessoa para isso precisaria encontrar desculpas, teria que se explicar, teria que mentir entre outros, mas nem mesmo assim se sentiria seguro, por não saber com certeza qual seria a reação da outra pessoa. Desse modo, nos relacionamentos líquidos vividos em especial pela internet tornasse tudo bem mais simples. Para romper um “laço de amizade” ou “relacionamento amoroso” por exemplo, basta pressionar a tecla DELETE e pronto. Apenas um click é suficiente para acionar ‘o canhão da indiferença’ e em poucos minutos, em vez que 500 amigos, terá apenas 499 ou o compromisso afetivo é rompido sem maiores questionamentos, explicações e dificuldades.

Em suma o mais importante agora é unir-se a alguém por algum motivo em comum, prevalecendo, no universo da velocidade, o princípio da quantidade de relações em detrimento da qualidade. Em uma era marcada pela cibercultura, na qual vida atual e vida virtual se fundem a todo o momento, as comunidades virtuais com as quais os indivíduos se identificam podem ser o primeiro passo na elaboração da reposta à pergunta quem sou eu?


Considerações finais:

A internet e suas redes sociais estão formando um complexo esquema de transformações e fragmentação nos relacionamentos. Tais transformações podem trazer benefícios, em menor escala, a indivíduos e/ou grupos de pessoas e, em maior escala, nota-se que há também os aspectos negativos como citado anteriormente (crise existencial, ‘cultura do descartável’ etc) que podem gerar reações a curto e longo prazo aos usuários desprovidos de senso crítico e compreensão dos riscos e benefícios nos relacionamentos de redes de comunicação.

O homem moderno surge como elemento de contradição, que conseguiu desencantar o mundo, tudo que existe e ainda existirá fruto das descobertas e avanços da tecnologia, devem sem dúvida, oferecer e ampliar as reais possibilidades do homem ser plenamente realizado. Entretanto, acredito que o maior desafio é o homem moderno não se incluir como mercadoria e passe como mero coadjuvante da história, se confundindo com produtos descartáveis com prazo de validade nas prateleiras da globalização.


REFERÊNCIAS:

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2 comentários:

  1. A discussão deste artigo versa em torno da crise da modernidade e a emergência de novos comportamentos a partir da cibercultura. Elias, realiza um dialogo argumentativo com pensadores contemporâneos que discutem este objeto. Recomendo a leitura deste artigo na integra, bem como, sua discussão em um momento oportuno de nossas aulas e eventos acadêmicos.

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  2. Ótimo artigo Elias Brasileiro você é um excelente Historiador.

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